quarta-feira, 26 de março de 2008

Deus é imutável, impassível e atemporal?

SERIA DEUS IMUTÁVEL, IMPASSÍVEL E ATEMPORAL?

Por José Ildo Swartele de Mello em Agosto de 1995 em cumprimento as exigências de uma das matérias do curso de Mestrado em Teologia da Faculdade Teológica Batista de São Paulo.

INTRODUÇÃO

Existe atualmente um forte debate em torno dos atributos de Deus. Um dos atributos que mais tem provocado polêmica é o da imutabilidade. São muitas as questões levantadas em torno deste tema: Pode Deus ser perfeito e mutável ao mesmo tempo? Por outro lado, crer que Deus muda implica necessariamente em crer que Ele seja finito e esteja em processo de evolução? Como nosso conceito de perfeição pode afetar nossa conclusão sobre a questão envolvendo a imutabilidade de Deus? Que tipo de relacionamento Deus tem com os homens? Que tipo de envolvimento Deus tem com o mundo? O que significa a expressão “Deus é amor”? Deus tem emoções, tais como, alegria, tristeza e compaixão? Ele é afetado positiva e/ou negativamente pelo que acontece no mundo? O que o mundo significa para Deus? Como entender os textos bíblicos que falam de Deus como sendo contingente, se arrependendo e mudando de planos? Deus pode se decepcionar com algo ou alguém? Deus conhece o futuro? Ele é atemporal? Pode existir algo novo para Deus? O conhecimento de Deus é enriquecido e, portanto, muda com o passar do tempo? Estas questões são complexas e de fundamental importância para a nossa compreensão de Deus. Dizem respeito ao nosso relacionamento com Deus, tendo inclusive implicações para o nosso entendimento sobre o papel da oração. São relevantes também para a missão da igreja, pois qual é o conteúdo de nossa pregação sobre Deus e qual o retrato que estamos fazendo dEle e passando para outras pessoas?

Vamos conhecer melhor o debate em torno da doutrina da imutabilidade de Deus travado entre o teísmo clássico e a teologia do processo, aqui representado principalmente pelos escritos de Cobb, como também estudar um pouco sobre as pressuposições de cada um destes pontos de vista e de que maneira influenciam suas conclusões sobre o tema. Procurarei apresentar os inconvenientes de cada uma destas duas posições e, por fim, é desejo mostrar que o cristão não está obrigado a ter que escolher entre estes dois extremos, pois existem outras alternativas, como a que é defendida por Ronald Nash, preocupadas em preservar o que há de positivo no teísmo clássico enquanto faz concessões face à argumentação dos teólogos do processo contra a doutrina da imutabilidade de Deus.

O teísmo tradicional baseado principalmente em Tomás de Aquino entende que Deus seja imutável em essência, atributos, consciência e vontade. O atributo de imutabilidade está ligado a um conceito grego de perfeição que é estático e atemporal. Assim, Deus é imutável por ser absolutamente perfeito não podendo mudar nem para pior e nem para melhor. Este conceito de imutabilidade leva ao da impassibilidade. Deus sendo imutável não pode estar então sujeito às alterações emocionais, não podendo também ser afetado positiva ou negativamente pelo mundo. Neste sentido, os textos bíblicos que falam de Deus como demonstrando uma variedade de sentimentos emotivos, juntamente com aquelas expressões envolvendo arrependimento de Deus, precisam ser interpretados como expressões antropomórficas. Até mesmo a expressão “Deus é amor” necessita ser entendida apenas no sentido de que Deus deseja boas coisas para suas criaturas.

Tal postura é contestada pela teologia do processo que entende que a forte influência grega sobre o pensamento de Aquino o impediu de desenvolver um melhor conceito de Deus. Os teólogos do processo, com seu conceito bipolar1 de Deus, falam de Deus como possuindo uma dimensão contingente, temporal, mutável, como um ser que realmente se sensibiliza, se emociona, entristece, compadece, etc., ainda falam de Deus como finito e em processo de evolução como e com o mundo, onde o relacionamento Deus-mundo é o de interdependência. A teologia do processo em suas críticas ao tomismo e na busca de uma visão de mundo e de Deus que melhor reflita a qualidade dinâmica da experiência contemporânea, reivindica ser seu conceito de Deus que mais se harmoniza com o ensino das Escrituras, pretendendo ser, portanto, a alternativa cristã para aqueles que estão insatisfeitos com o teísmo tradicional.

Reservo um capítulo para analisar cada um destes dois pontos de vista sobre a imutabilidade de Deus. Inicio o tratamento de cada posição tecendo algumas considerações sobre o pano de fundo destas duas correntes teológicas, buscando discernir a cosmovisão que está por trás de suas concepções sobre o tema e que grau de influência tem exercido sobre os seus conceitos de Deus. Onde procuro demonstrar que ambas as correntes têm em comum a preocupação e o esforço por desenvolverem um conceito de Deus que esteja em harmonia com as cosmovisões prevalecentes em suas respectivas culturas. Ao mesmo tempo que é louvável as preocupações com relevância e contextualização do ensino bíblico, também é perigoso, pois tende a nos desviar do sentido natural e original do texto. Corre-se sempre o risco de negligenciar a cosmovisão dos próprios hebreus, autores e primários receptáculos das Escrituras.

A seguir, preocupado em ser exato e justo, me concentro na exposição do conteúdo do seu ensino sobre imutabilidade. Tratarei de maneira mais superficial alguns temas que estão intimamente relacionados com o da imutabilidade de Deus: impassibilidade, o amor de Deus, relacionamento Deus-mundo, atemporalidade, presciência e a doutrina de Tomás de Aquino sobre a simplicidade de Deus. Depois da apresentação do ensino de cada corrente, faço, ainda dentro de cada capítulo, uma breve avaliação.

Por fim, no terceiro capítulo, apresento uma das muitas alternativas que existem entre estes dois extremos do debate sobre a imutabilidade de Deus. A idéia é a de se evitar o erro de pensar que o cristão está forçado a optar entre estes dois pontos de vistas como se fossem os únicos existentes. A alternativa que apresento é aquela defendida por Ronald Nash em seu livro “The concept of God”. Nash propõe uma visão mais equilibrada que se esforça por preservar o que há de positivo no tomismo, enquanto reconhece a procedência de várias críticas que a teologia do processo faz ao teísmo clássico, principalmente no que diz respeito ao atributo de imutabilidade e impassibilidade. Em outras palavras, Nash concorda com os teólogos do processo em que Deus não é impassível. Já, quanto à imutabilidade, ao mesmo tempo que discorda de Aquino, Nash é cauteloso, procurando evitar a idéia de Deus, defendida pela teologia do processo, que o apresenta como um ser finito e em processo de desenvolvimento.

Devido ao escopo e as dimensões deste trabalho não será possível entrar, como gostaria, em questões exegéticas e hermenêuticas, o que, reconheço, seria precioso para verificar as reivindicações feitas por ambas as correntes em debate de estarem em harmonia com as Escrituras Sagradas. Mas, ao analisarmos o pano de fundo de cada uma delas, perceberemos o poder exercido por seus pressupostos e como isto influencia, de modo determinante, o seu entendimento bíblico sobre se Deus é ou não imutável. O que levanta a questão sobre como devemos fazer teologia e sobre como deve ser o relacionamento da teologia com a ciência? Sou um teólogo de tradição armínio-wesleyana, pós-moderno, sensível às revoluções conceituais desencadeadas pelos avanços científicos, mas que, ao mesmo tempo, se preocupa em ser fiel às Escrituras Sagradas. Neste sentido, questiono Aquino e a teologia do processo, enquanto encontro mais afinidades com o teísmo de Nash e o seu modo de fazer teologia.

1. TOMÁS DE AQUINO

1.1. Pano de Fundo

É sensível a influência do pensamento grego sobre a formulação do conceito de imutabilidade de Deus de Tomás de Aquino. A idéia de perfeição estática, imutável e atemporal não é de origem cristã, mas grega. Os filósofos gregos tentavam escapar para um mundo em que nada mudasse. Platão supunha que a diferença entre o passado e o futuro seria mínima. Os gregos concebiam a eternidade como sendo oposta ao tempo. Eles criam que existiam duas dimensões: uma eterna, no sentido de atemporal, pois ensinavam que a eternidade2 era uma dimensão em que não existe tempo, sendo assim, imutável e perfeita; e, outra, oposta a primeira, temporal e mutável. Concluíam, portanto, que tudo aquilo que se encontra dentro da dimensão do tempo, por ser mutável, é imperfeito. Esta idéia exerceu tamanha influência sobre os teólogos da Idade Média, incluindo Aquino, que eles não demonstraram nenhum interesse sobre o aspecto histórico do cristianismo. Prova é que, neste período, nem uma obra foi escrita sobre a vida de Jesus! Consideravam os eventos históricos relativos e sem importância universal, só se importando com os ensinos cristãos.

A idéia grega de perfeição e o conceito de Aristóteles de relação, que via relação como envolvendo mudança, dependência e, consequentemente, imperfeição, conduz Tomás de Aquino a afirmar que o mundo pode estar relacionado com Deus, pois é dependente dEle, mas Deus não pode realmente relacionar-se com o mundo. E se Ele fosse, então Ele seria dependente da criação e relativo à ela, não podendo ser o imutável Deus requerido pela idéia grega de perfeição. E é bom lembrar também que a cosmologia do passado era estática, sendo, portanto bem diferente da atual.

1.2. Conceito de Aquino sobre a imutabilidade de Deus

Aquino afirma que Deus é própria e absolutamente imutável:

Assim, pois, toda criatura tem o poder de mudar: ou substancialmente, como os corpos corruptíveis; ou só localmente, como os corpos celestes; ou pela relação com o fim e pela aplicação da virtude própria a diversos objetos, como os anjos. E, universalmente, todas as criaturas, em geral, são mutáveis em relação ao poder do Criador, de quem depende o ser ou o não-ser delas. Ora, como Deus não é mutável de nenhum desses modos, ele é própria e absolutamente imutável.3

Aquino enfrentou as seguintes objeções ao conceito da imutabilidade divina:

1. Pois, tudo o que se move a si mesmo é, de certo modo, mutável. Ora, diz Agostinho: O espírito criador move-se a si mesmo não, porém, temporal e localmente. Logo, Deus é de certo modo mutável.

2. Demais. A Escritura diz, que a sabedoria é mais activa do que todas as cousas actuosas. Ora, Deus é a sabedoria mesma. Logo, é mutável.

3. Demais. Aproximar-se e afastar-se implicam movimento. Ora, a Escritura diz de Deus: Chegai-vos para Deus e ele se chegará para vós. Logo, Deus é mutável.4

A solução apresentada por Aquino à estes problemas começa pelos argumentos da existência necessária de Deus e de Sua auto-suficiência, pois “aquilo cuja existência não é causada, por necessidade de sua natureza, tem que existir como existe.”5 E, recorre também, ao argumento da simplicidade de Deus, que ensina que, enquanto o homem tem corpo e alma, duas substâncias, Deus tem apenas uma, concluindo daí que Ele imutável, pois sendo “acto puro”, sem nenhuma mistura de potência, pois que esta é em si posterior ao acto. Diz Aquino que tudo o que muda, de qualquer modo, é, de certa maneira, potencial. Logo, conclui que é impossível que Deus seja mutável, de qualquer modo. Aquino continua seu argumento dizendo que em todo movido há algo que permanece e algo que se modifica, de maneira que todo ser movido implica uma composição. “Ora”, conclui Aquino, “como já demonstramos, Deus, absolutamente simples, não tem nenhuma composição. Logo é claro que não pode sofrer nenhuma mudança.”6

A seguir, Aquino, influenciado pelo pensamento grego, apela para a infinitude e perfeição da totalidade do ser divino, pois, Deus, sendo absolutamente perfeito, “nada pode adquirir, e nem atingir nada que antes já não atingisse. Logo, de nenhum modo é susceptível de movimento.”7 O argumento é lógico, pois qualquer mudança ou é para melhor ou para pior, e, no caso de Deus, não pode ser para melhor, pois a perfeição não pode ser aperfeiçoada, e nem, muito menos, para pior, o que resultaria em falta de perfeição.

Desta forma, Aquino prepara o terreno para responder às três objeções levantadas. Em resposta à primeira objeção, Aquino lembra que Agostinho está se exprimindo ao modo de Platão, que ensinava que “o primeiro móvel se move a si mesmo, denominando movimento toda operação, no sentido em que são considerados movimentos, também, inteligir, querer e amar.”8 Portanto, Agostinho não estava usando o termo “mover” no sentido de movimento e mutação. Em resposta à segunda objeção, Aquino lembra que a sabedoria é considerada móvel apenas em relação as suas participações, assim como o sol parece se aproximar da terra porque a toca com os raios da sua luz. Já, em resposta à terceira objeção, Aquino diz que as expressões citadas da Escritura são metafóricas, o que hoje denominamos, antropomorfismos. Ele cita o seguinte exemplo:

... assim como dizemos que o sol entra pela casa ou dela sai, porque os seus raios a invadem, assim dizemos que Deus se aproxima ou se afasta de nós, na medida em que percebemos a influência ou a deficiência da sua bondade. 9

O mesmo explica a aparente contradição de textos bíblicos que dizem que Deus não se arrepende, como por exemplo: Nm 23.19; 1 Sm 15.29 e Sl 110.4, com outros textos que falam de Deus como se arrependendo, tais como: Gn 6.6; Ex 32.14 e 2 Sm 24.16.

1.3. Temas correlacionados

1.3.1. Impassibilidade e amor de Deus

Os tomistas também defenderam a doutrina da impassibilidade de Deus, segundo a qual, Deus não pode ser influenciado nem afetado emocionalmente por alguma coisa da criação. Eles argumentavam que a passibilidade envolve a potencialidade, e esta envolve mudança. O que contradizia seu modo de entender a imutabilidade divina.10

Ao falar sobre o amor de Deus, Aquino diz que Deus não ama como nós amamos11. Deus não ama com o amor do desejo, porque Ele não necessita nada além de si mesmo12. Ele ama alguém no sentido em que deseja boas coisas para este alguém. Deus ama sem paixão. Podemos atribuir paixão a Deus, somente de modo metafórico.13

1.3.2. Relacionamento Deus-mundo

Como já mencionado anteriormente, Aquino segue Aristóteles quando diz o mundo pode estar relacionado com Deus, pois é dependente dEle, mas Deus não pode realmente relacionar-se com o mundo. E se Ele fosse, então Ele seria dependente da criação e relativo à ela, não podendo ser o imutável Deus requerido pela idéia grega de perfeição. Portanto, para Aquino, a relação Deus-mundo é como uma avenida de mão única.

1.3.3. Atemporalidade, presciência e liberdade humana

O conceito de imutabilidade, conforme é ensinado por Aquino, exige que Deus seja atemporal e presciente. Por atemporal entende-se que Deus não esteja restrito a dimensão do tempo. Assim, seu conhecimento do futuro seria tão perfeito quanto seu conhecimento do passado, não havendo nada novo que Deus pudesse conhecer ou experimentar. Para um Deus atemporal, passado, presente e futuro existem em um eterno presente. O que implica em que Deus exista totalmente fora do tempo. Deus não teria duração temporal e nem localização temporal.14

Mais abaixo, veremos com maiores detalhes que o conceito de atemporalidade deve sua origem a Platão e que foi introduzido no pensamento cristão através de Agostinho.

1.4. Avaliação

A apresentação e a defesa que Aquino faz da imutabilidade divina não estão isentas de problemas, pois, influenciado pela concepção grega de perfeição e, também influenciado pela mentalidade medieval, demonstra uma ênfase à transcendência abstrata de Deus, como bem observa R. L. Saucy, ao dizer que os atributos de Deus eram definidos principalmente de forma negativa, pois Ele era o absoluto intemporal e imutável, causa inicial e final do universo. Definido como essência, pouca coisa poderia ser dita a respeito dEle.15

Isto fica ainda muito mais evidente quando se levanta questões em torno da doutrina da impassibilidade de Deus, tão defendida pelos tomistas, que ensina que Deus não pode, de modo algum, ser afetado e nem influenciado emocionalmente. Tal ensino apresenta Deus como se Ele fosse indiferente, apático, destituído de afeto, simpatia e compaixão, o que não parece se harmonizar com o Deus descrito pelas Escrituras tanto do Antigo como do Novo Testamento (Is 40.11; 49.15; 53; 63.1-10; 66.13; Jo 3.16; Ef 4.30; Hb 4.14-16). Jesus, o Verbo que se fez carne, que é a exata expressão de Deus Pai, nada demonstrou que pudéssemos chamar de impassibilidade, muito pelo contrário, os Evangelhos estão repletos de exemplos de sua ternura e compaixão. Jesus chorava com os que estavam chorando e se alegrava com os que estavam se alegrando, o que demonstrava toda a Sua sensibilidade.

A oração de dedicação do templo feita por Salomão (1 Rs 8.12-66) revela que Deus é afetado positivamente por nossas orações feitas aqui na terra. Por outro lado, textos como Jr 4.23-28 e Jl 2.10 indicam que o pecado e a impiedade humana têm afetado a Deus, a ponto de desencadear o seu juízo.16

Ao enfatizar a transcendência abstrata e definir a perfeição de Deus em termos de essência, Aquino perde de vista os aspectos relacionados a Deus como um ser pessoal. Ter emoções é próprio de um ser pessoal, bem como poder estabelecer relacionamentos afetivos. Deus tem total domínio sobre suas emoções, não sofrendo, portanto, de nenhum distúrbio emocional. As experiências emocionais de Deus são perfeita e totalmente condizentes com os seus demais atributos, incluindo o da imutabilidade, não havendo o suposto conflito temido por Tomás de Aquino, como bem observa G. R. Lewis, quando diz que os tomistas argumentavam que a passibilidade envolve a potencialidade, e esta envolve mudança. o potencial não realizado e a mudança na Deidade pareciam contradizer o modo pelo qual compreendiam a imutabilidade, transcendência, auto-existência, auto-determinação e perfeição de Deus. Lewis propões um reinterpretação da doutrina da imutabilidade de Deus, ao afirmar que ela, a imutabilidade de Deus, não reduz o Senhor vivo, ativo e pessoal de todos, a um princípio impessoal e estático, pois para ele, embora somente Deus tenha vida em Si mesmo, Ele tem outorgado vida a muitos outros a fim de participar dos relacionamentos pessoais com eles. Assim, a alegria perfeita de Deus, por certo, não seria irrealista, mas, sim, inseparável do Seu conhecimento de todos os males e os valores da criação. Lewis conclui citando Kitamore que disse que o sofrimento aceito como inevitável é depressivo, mas o sofrimento que nasce do amor produz poder e vida.17

Discordo do tomismo quando ensina que Deus ama sem paixões, apenas no sentido de que deseja boas coisas para os outros, ao mesmo tempo que concordo com a teologia do processo que nos lembra que amar implica em ser afetado pelas ações e condições do ser amado. Portanto, amar sem emoções, simpatia e compaixão é uma contradição. Além disto, um amor frio e indiferente, desprovido de empatia, não é nada inspirador e não encontra respaldo bíblico, muito pelo contrário, o Deus das Escrituras, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, é um Deus de amor compassivo e sofredor.

Deve-se procurar entender o que os autores do AT queriam dizer com o uso do verbo “arrepender” tendo Deus como sujeito. Querer explicar suas várias ocorrências como sendo mero emprego de linguagem antropomórfica, querendo assim escapar do dilema sem reconhecer a força e a intensidade destas expressões, não parece a atitude mais adequada. Derek Kidner ao comentar Gn 6.618, diz que os autores do Antigo Testamento empregam as expressões mais ousadas, contrabalançadas em outros lugares, se necessário, mas não enfraquecidas. O exemplo mais notável disto encontramos em 1 Sm 15.29,35, onde o autor afirma primeiro que Deus não é homem para mentir e nem se arrepender, mas logo abaixo, diz que Deus se arrependeu de ter escolhido Saul para ser rei. Com certeza o autor não estava se contradizendo, o que ele queria comunicar é que nós podemos confiar em Deus e em sua promessas, pois Ele não mente e nem é instável. Deus não trata conosco de maneira caprichosa e inconseqüente, já, no v. 35, vemos que Deus está decepcionado com Saul, que frustrou as expectativas de Deus. Pois não foi para se comportar daquele modo que Deus havia elegido Saul como rei. Apesar de Deus ter elegido Saul rei de Israel, Deus não era culpado pelos atos irresponsáveis e prepotentes de Saul. Assim, Deus estava decepcionado com Saul, arrependido de tê-lo elegido rei e estava fazendo algo a respeito, no caso, estava providenciando outro rei. Neste sentido, o arrependimento de Deus não deve ser entendido como um ato de alguém volúvel ou um outro defeito qualquer de caráter que levantaria suspeitas sobre a fidelidade de Deus, mas como alguém que teve sua confiança traída e fica desapontado.

Falar que Deus se arrepende ou fica desapontado levanta a questão sobre a presciência de Deus. Onisciência significa que Deus conhece todas as coisas. Para entrar em real relacionamento com o mundo, Deus mergulha na dimensão do tempo e da história.

A Bíblia desconhece um Deus atemporal19. A idéia de perfeição estática, imutável e atemporal não é de origem cristã, mas grega. Pois eram os gregos que concebiam a eternidade como sendo oposta ao tempo. Eles criam que existiam duas dimensões: uma eterna, no sentido de atemporal, pois ensinavam que a eternidade20 era uma dimensão em que não existe tempo, sendo assim, imutável e perfeita; e, outra, oposta a primeira, temporal e mutável. Concluíam, portanto, que tudo aquilo que se encontra dentro da dimensão do tempo, por ser mutável, é imperfeito. Esta idéia exerceu tamanha influência sobre os teólogos da Idade Média, incluindo Aquino, que eles não demonstraram nenhum interesse sobre o aspecto histórico do cristianismo. Prova é que, neste período, nem uma obra foi escrita sobre a vida de Jesus! Consideravam os eventos históricos relativos e sem importância universal, só se importando com os ensinos cristãos.

Se Deus conhece ou não o futuro é algo muito controvertido. Alguns dizem que o que Deus conhece sobre o futuro é aquilo que Ele mesmo fará, mas que Ele desconhece aqueles eventos futuros que estão condicionados a decisão humana. Pois não existe ainda um amanhã para ser conhecido por Deus. Dizem também que o futuro deve estar em aberto para que o homem seja livre e para que os diálogos entre Deus e os profetas envolvendo promessas e juízos condicionais de Deus possam ser levados a sério. Ainda afirmam que aqueles textos bíblicos que relatam Deus como estando incerto em relação a alguns eventos futuros precisam ser levados a sério, não devendo ser interpretados atropomorficamente (como por exemplo: Am 5.15; Ex 32.30; Ez 12.1-3 e Jr 26.2-3), bem como, aqueles textos que falam que o povo não agiu como Deus pensava que ira agir, como Jr 3.7: “E, depois de ela ter feito tudo isso, eu pensei que ela voltaria para mim, mas não voltou...” (ver também Jr 3.19-20).21 Deus precisa estar no tempo para entendermos como pode sua ira durar apenas um instante. Deve, portanto, existir um momento em que Deus está irado e outro em que não mais está irado. Segundo este ponto de vista, as ações de Deus não estariam predeterminadas, dependeriam, em parte, das ações dos homens, assim, as ações humanas contribuiriam significativamente para a construção do futuro. Como um grande mestre de xadrez, a despeito dos lances do adversário, Deus conduz o jogo para sua vitória.

É preciso lembrar que a onipotência de Deus concede-lhe o poder de autolimitação. O que é reconhecido por teólogos tradicionais que seguem a linha de Aquino, como por exemplo, Thiessen, como podemos verificar nas seguintes afirmações:

Tampouco exclui a onipotência o poder de autolimitação, mas antes esse poder está nela contido. Deus se limitou até certo ponto pelo livre arbítrio de Suas criaturas racionais. É por isso que Ele não manteve o pecado fora do universo exercitando Seu poder; é por isso também que Ele não salva ninguém a força.22

Não poderia Deus autolimitar-se para experimentar novidade e estabelecer relacionamentos íntegros e reais com suas criaturas? Quando o ex-piloto de fórmula 1, Aírton Senna, ainda era vivo, eu costumava gravar os Grandes Prêmios, que, geralmente, eram e ainda são transmitidos pela televisão nas manhãs de domingo, horário em que costumo estar na Escola Dominical. Ao chegar em casa, pegava a fita contendo a gravação da corrida, a rebobinava e começa assistir a corrida desde o início, evitando saber qualquer informação a respeito do resultado final. Eu tinha em minhas mãos o poder para conhecer o resultado final, mas me abstinha deste poder a fim de experimentar todas as emoções que são possíveis sentir quando se assiste uma corrida “ao vivo”. Pois, o que é mais chato que assistir uma corrida inteira de fórmula 1 quando já se sabe tudo que vai acontecer? Existem alegrias e muitas emoções nas explorações e descobertas humanas. Em outras palavras, existem reais vantagens em estar dentro da dimensão do tempo.

O Deus onipotente para que pudesse estabelecer um relacionamento com a humanidade que fosse íntegro e real, cria o homem a sua imagem e semelhança, concedendo-lhe, entre outras coisas, poder e livre-arbítrio. Isto implica em condicionamento. Deus, em favor de um real relacionamento com o mundo, se condiciona. Pois, para que possa existir um relacionamento íntegro entre duas pessoas uma não deve exercer total controle sobre a outra. Neste sentido, podemos dizer que Deus experimenta novidade. Deus poderia ter criado todas as coisas programadas para darem certo. Poderia ter criado os anjos e os homens como robôs, programados para obedecerem, incapazes de se rebelarem. Mas as expressões de amor, louvor, devoção e serviço destes seres seriam artificiais e “sem graça”, carecendo de significado real. Deus, em sua soberania, resolve criar seres angelicais e humanos com o atributo do livre-arbítrio, mesmo ciente das conseqüências e do alto preço que deveria ser pago: surgimento do pecado, crimes, doenças, guerras, fome, tristeza, necessidade da cruz de Cristo, etc… Ninguém pode ser livre só para obedecer. Liberdade implica em opção e escolha. Neste mundo temos muitas opções, somos livres para escolher, portanto, quando amamos a Deus e respondemos positivamente ao seu chamado, isto é cheio de significado. Este relacionamento entre Deus e o homem é cheio de afeto. É algo tremendo! Deus criou tudo perfeito, o mal no universo existe como uma perversão dos seres angelicais e humanos, e que só pode ser entendido dentro do propósito último de Deus.

Outro problema com a posição de Aquino reside em se utilizar como fato consumado o especulativo atributo da simplicidade de Deus em defesa da imutabilidade divina. Pois a idéia da simplicidade foi formulada para evitar os extremos do hiper-realismo, que implicava na crença de que Deus era composto de partes, e do nominalismo que acabava obliterando todas as diferenças entre os atributos divinos e, por fim, negando que Deus tenha uma natureza. Nash, em seu livro “The Concept of God”, dedica um capítulo inteiro a esta questão e conclui que não existem boas razões para afirmar a doutrina da simplicidade divina. Ela carece de evidências bíblicas, não tem valor prático e nada tem acrescentado a compreensão de Deus, sendo pura especulação.23

As objeções que Aquino enfrentou quanto à imutabilidade divina não são as mesmas dos dias atuais. As lacunas deixadas pelo teísmo clássico favorecem o surgimento da Teologia do Processo, que pretende ser a resposta e a alternativa cristã ao tomismo que considera como totalmente ultrapassado e irrelevante para a mentalidade moderna.

2. TEOLOGIA DO PROCESSO

2.1. Pano de Fundo

A era atual tem experimentado uma fantástica revolução conceptual. A revolução científica ocorreu em sucessivos estágios em dois campos distintos: na biologia como um resultado da teoria da evolução de Darwin e na física como resultado da teoria da relatividade de Einstein. Sem falar no conhecimento do mundo subatômico como sendo um fluxo de energia uma rede de relacionamentos. De modo que a cosmovisão contemporânea é bem diferente daquela da época de Aquino. O estático mundo de espécies fixas acabou dando lugar a uma noção dinâmica de desenvolvimento e evolução das formas de vida, que tem afetado as demais ciências, a física, química, psicologia e ciências sociais.24 A partir de Einstein, as categorias absolutas de espaço e tempo deram lugar à uma perspectiva relativista de encarar a realidade.

Até Hegel, prevalecia o ideal platônico de imutabilidade, pois, com ele, é que se começou a tentativa de se levar o tempo a sério. Hegel formulou explicitamente suas dúvidas quanto à tentativa platônica de escapar ao tempo. Hegel e Darwin, a despeito de suas diferenças, reforçavam um ao outro, no sentido de distanciar a filosofia da questão “O que somos?” e levá-la para “O que poderíamos vir a ser?”25.

O impacto desta revolução conceptual se faz sentir também na Teologia Liberal, e, em especial, na teologia do processo, também conhecida como panenteísmo, que surge com Alfred North Whitehead, que buscou elaborar uma metafísica que se harmonizasse melhor com os novos conceitos científicos, levando muito a sério “os temas de tornar-se, relação e novidade”26, enfatizando a primazia do “tornar-se” sobre o “ser”, do “relativo” sobre o “absoluto”, do “interdependente” sobre o “independente”, etc.. Tal metafísica é a base da teologia do processo.

2.2. Conceito Panenteísta sobre a Imutabilidade de Deus

Para Whitehead, a realidade é um processo temporal. Teilhard de Chardin partilha do mesmo ponto de vista: “Nós vivemos num mundo que está se formando em vez de num mundo que é”27 Um universo embriônico e incompleto, onde mudança e desenvolvimento são características marcantes. Para Whitehead, o mundo é feito de eventos e processos, onde a ênfase recai muito mais sobre as categorias de tornar-se e atividade do que sobre as categorias do ser e substância.28 Através da ciência o homem tem entrado numa profunda relação com a natureza, descobrindo não somente a estrutura do universo, mas os caminhos de explorar e utilizar seu poder, tanto criativamente quanto destrutivamente, como por exemplo: a exploração do espaço, os avanços na medicina e a bomba atômica. Quanto mais o homem se aprofunda em seu conhecimento da natureza, mais ele se dá conta da ambigüidade do poder natural e de sua responsabilidade em relação a si mesmo e ao seu futuro. o homem não é um mero espectador do processo natural.29 O aumento do envolvimento do homem na natureza e na história tem elevado sua percepção do tempo e do caráter dinâmico da realidade. Para o homem do século XX, o mundo, claramente, não é estático. Movimento e novidade fazem intimamente parte de sua experiência para serem ignorados ou tratados superficialmente. Onde o tempo não é uma ilusão, mas uma realidade. Mudar não envolve apenas um eterno retorno a um preestabelecido padrão, mas à emergência de uma novidade genuína.30 Deus não seria uma exceção às regras, pelo contrário, “Ele é a exemplificação maior dos princípios metafísicos segundo os quais todas as coisas são explicadas.”31

Ao afirmar que a realidade é um processo temporal, orgânico e interrelacionado, portanto, relativo, os teólogos do processo não querem dizer que tudo está em processo, pois crêem que existem princípios de processos e formas abstratas que são imutáveis. Mas, como dizem, ser real é estar em processo, pois qualquer coisa que não esteja em processo é uma abstração do processo, não uma madura e bem estabelecida realidade”32

Sendo assim, desenvolveram um conceito bipolar de Deus, que ensina que Deus tem um aspecto abstrato e absoluto e um outro que é concreto e relativo. Assim Deus é apresentado como sendo abstrato e concreto, necessário e contingente, transcendente e imanente, eterno e temporal, potencial e real, um e muitos, infinito e finito, causa e efeito, absoluto e relativo, imutável e mutável. Enquanto, em sua natureza primordial e abstrata, Deus é apresentado como sendo perfeito em amor, bondade e onipresença, já, no que diz respeito a sua natureza conseqüente e concreta, Ele é descrito como limitado, sujeito ao desenvolvimento, desafiado à auto-superar-se criativamente. Neste sentido Deus seria eminentemente social e relativo, estando no mundo e tendo o mundo dentro de si. O que significa Deus estar profundamente identificado com o mundo, que, no caso, seria sua natureza conseqüente e concreta, o que se convencionou denominar de “pan-en-teísmo”. Onde Deus estaria relacionado com o mundo assim como nós estamos relacionados com o nosso corpo.33 “Deus é a perfeita realidade”34, “genuína realidade temporal e social”35; “Deus é o amor que seduz o homem para a aventura”36, num processo de auto-criação buscando a plenitude da possibilidade não-realizada.37 Deus é abstrato e concreto; estrutura e processo de desenvolvimento; infinito em seu ser primordial, mas limitado em sua realização física de sua própria natureza conceptual.38 O polo primordial de Deus pode ser entendido como a mente de Deus. A mente pode ser entendida como um evento energético, onde meu ato de pensar recebe energia de ocorrências passadas em meu corpo e transmite aquela energia, apropriadamente modificada, para os eventos subsequentes.39 Percebemos mais uma vez aí, a influência dos avanços científicos e tecnológicos sobre a teologia do processo:

Pesquisas históricas têm feito com que o passado, mesmo o primitivo, se torne parte de nossa própria e contínua memória. Nosso meio ambiente está saturado de informações que, através dos computadores, estão ao alcance dos nossos dados.40

O físico é um secundário produto de um processo ainda muito mais fundamental. O físico é um processo mental, um fenômeno espiritual.41 Para os teólogos do processo, “Deus pode ser concebido como um tipo muito especial de evento energético”42. “Deus não apenas influencia cada ocasião de experiência, mas também, é afetado por cada uma delas”.43 Neste sentido, eles se opõem ao niilismo, afirmando sua confiança em que o mundo e tudo o que nEle acontece é realmente significativo e relevante para Deus,44 como também, desafiam o teísmo clássico a explicar, a partir do seu próprio conceito da Divindade, qual o significado da criação para Deus.

Outro ponto importante na doutrina de Deus defendida por Whitehead é a distinção feita entre Deus e a criatividade. Como bem observa Franklin:

A criatividade é, na metafísica de Whitehead, o poder de ser/tornar-se. Dessa maneira, o fato de alguma coisa existir é atribuído não a Deus, mas à criatividade ( que, em conjunto com as noções do “um” e dos “muitos” se constitui na categoria da Causa Ulterior, segundo Whitehead). Em contraste, a função primária de Deus é ajudar a moldar o caráter do mundo. Assim, o fato de uma coisa existir deve ser referido à criatividade; aquilo que uma coisa é deve ser parcialmente referido a Deus. Como conseqüência, no sistema de Whitehead a própria existência de Deus é explicada com uma referência não a Deus, mas à criatividade. Em termos francos, podemos dizer que tanto Deus quanto o mundo são criaturas da criatividade.45

Ensinam também que Deus é infinito em sua potencialidade, naquilo que Ele pode vir a ser ou tornar-se, não naquilo que Ele é. Sendo, portanto, infinitamente capaz de aprimorar-se. Afirmam que infinitude absoluta não faz sentido.46 E afirmam que não existe nas Escrituras nenhuma imutabilidade atribuída a Deus, exceto naqueles contextos de implicações puramente éticas.47

E, por fim, eles negam a existência de Deus como sendo imutável, impassível e absoluto, cuja relação com o mundo seja puramente externa a ele, significando que o mundo nada contribui para ele. Negam a existência de Deus como sendo ele um sancionador do status quo. A noção de Deus como absolutamente imutável tem sugerido que o próprio Deus tenha estabelecido uma imutável ordem no mundo, implicando na idéia de que obedecer a Deus é o mesmo que preservar o status quo.48 Eles rejeitam um Deus moral e soberano.

2.3. Temas correlacionados

2.3.1. Questão da impassibilidade e do amor de Deus

Os teólogos do processo reivindicam que sua doutrina Whitehediana de Deus é a que melhor reflete o Deus da revelação Cristã.49. Eles Opõem-se a estática cosmologia do passado, pretendendo oferecer uma visão do mundo que melhor reflita a qualidade dinâmica da experiência contemporânea.

“O dinâmico e simpático Deus da revelação cristão, que revela-se como amor na pessoa de Jesus Cristo, está menos em casa num mundo de estáticas substâncias do que no dinâmico e novo mundo de relações do pensamento do processo”50

Eles afirmam também que a característica principal e básica da realidade divina é melhor descrita no termo “amor”.51 Amor envolve simpatia, empatia e compaixão, o que implica em sentir a dor do outro, chorar com o que chora, alegrar-se com o que está alegre. “Amar outra pessoa neste sentido é permitir que os sentimentos daquela pessoa nos afetem”52, eles dão o seguinte exemplo:

Os “outros” com quem nos simpatizamos devem imediatamente ser os membros do nosso corpo. Quando as células das nossas mãos, por exemplo, estão doendo, nós partilhamos desta dor; nós não vemos sua condição impassivelmente. Quando nosso corpos estão saudáveis e bem dispostos, nós nos sentimos bem com eles. Mas nós também sentimos simpatia por outros seres humanos. Nós duvidaríamos do pretenso amor de um marido por sua mulher, no caso dele não ser afetado por ela, no caso dele permanecer impassível em relação a ela. Não obstante, o teísmo tradicional diz que Deus é completamente impassível, que não existe nenhum elemento de simpatia no amor de Deus por suas criaturas... Isto é, que Deus nos ama apenas no sentido que Ele deseja boas coisas para nós... Esta noção de amor tem promovido um “amor” que é destituído de genuíno sensibilidade quanto as profundas necessidades dos “seres amados”... Esta noção tradicional de amor como somente criativo está baseada no juízo de que independência ou absoluto são valores extremamente bons, enquanto dependência ou relativismo são tidos como desprovidos de perfeição.53

O argumento segue procurando demonstrar que dependência não significa, necessariamente, imperfeição:

... nós não admiramos alguém cuja alegria não seja em parte dependente das condições daqueles que nos rodeiam. Pais que permanecem em absoluta alegria enquanto seus filhos estão em agonia não seriam perfeitos... em outras palavras, enquanto existe um tipo de independência ou absolutividade que é admirável, existe um tipo de dependência e relatividade que também é admirável.54

Outro argumento usado é que o conceito de imutabilidade implica na incapacidade de desejar qualquer coisa que já não se possua, pois se é absolutamente perfeito e completo, mas amar, ao contrário, significa desejar por algo que ainda não se conquistou.55 Concluem, então, se Deus ama não pode ser imutável.

Negam também o estereótipo masculino aplicado a Deus, o que só serviu para reforçar a imagem de Deus como controlador, independente, não-receptivo e não-responsivo, insensível, inflexível e sem emoções.56

2.3.2. Relacionamento Deus-mundo

O que foi dito no tópico anterior fala muito sobre o relacionamento Deus-mundo. Como foi visto quando tratamos do seu conceito bipolar de Deus, a teologia do processo dá primazia à interdependência, apresentado-a como um ideal acima do da independência. De fato, eles descrevem a interdependência não apenas como um ideal, mas como uma característica ontológica, da qual não podemos nos olvidar.57 Tal interdependência envolve a Deus também. Os teólogos do processo criticam Tomás de Aquino por separar Deus do mundo. Eles dizem que o problema reside na idéia grega de perfeição e no conceito de Aristóteles de relação, pois Aristóteles via relação como envolvendo mudança, dependência e, consequentemente, imperfeição. O resultado, dizem os teólogos do processo, foi que Tomás de Aquino afirmou que o mundo pode estar relacionado com Deus, pois é dependente dEle, mas Deus não pode realmente relacionar-se com o mundo. E se Ele fosse, então Ele seria dependente da criação e relativo à ela, não podendo ser o imutável Deus requerido pela idéia grega de perfeição. Dizem também que sua concepção bipolar de Deus é a que de fato descreve o Deus da revelação cristã, advogando, portanto, terem base bíblica enquanto acusam o teísmo clássico de estar ignorando as Escrituras por causa da influência do pensamento grego.58

2.3.3. Atemporalidade, presciência e liberdade humana

Já falamos que os teólogos do processo encaram a realidade como um processo temporal. Onde o mundo é feito de eventos e processos e que, o aumento do envolvimento do homem na natureza e na história tem elevado sua percepção do tempo e do caráter dinâmico da realidade. Para o homem do século XX, o mundo, claramente, não é estático. Movimento e novidade fazem intimamente parte de sua experiência para serem ignorados ou tratados superficialmente. Onde o tempo não é uma ilusão, mas uma realidade. Mudar não envolve apenas um eterno retorno a um preestabelecido padrão, mas à emergência de uma novidade genuína. Deus não é atemporal, Ele está sujeito ao tempo, Ele está em processo de desenvolvimento.

Segundo a teologia do processo, o conhecimento de Deus também é relativo. O conhecimento de Deus se processa a medida que os eventos se desenrolam. Cada nova decisão e ação resulta em experiência e aprendizado para Deus.. Deus sabe tudo o que se pode saber, mas não conhece o futuro, porque o futuro não é algo já exista para ser algo que se possa ser conhecido. De modo que o mundo enriquece a experiência divina.59

2.4. Avaliação

Os teólogos do processo estão certos em criticar alguns ensinos de Tomás de Aquino, principalmente aqueles que apresentam Deus de forma fria, estática e impassível, isolado e sem real, dinâmico e significativo relacionamento com o mundo. As nossas próprias orações estariam também desprovidas de significado se não existisse um relacionamento real e interpessoal entre Deus e os homens.

É forte o argumento de que a crença num ser divino, cujo amor seja puramente criativo, melhor descrito como “boa vontade ativa”, desprovido, portanto, de qualquer noção de simpatia, acaba promovendo e inspirando um amor que é desprovido de genuína sensibilidade em relação as profundas necessidades do ser amado. Um amor frio e indiferente. Portanto, não há que se duvidar que o Deus das Escrituras Sagradas é um Deus de amor e genuína compaixão.

Estão certos em afirmar que o mundo tem significado para Deus, “porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Certamente, fica muito complicado tentar explicar que significado pode ter a criação para um Deus impassível.

É louvável também seu esforço na tentativa de expressar uma visão de Deus e do mundo por um conjunto coerente e claramente definido de conceitos metafísicos. Concordo também com Diehl quando ressalta que a teologia do processo fornece uma resposta sustentável à acusação de que a linguagem teológica não faz sentido. Pois, diz ele, o teólogo do processo argumenta que se a metafísica descreve aqueles conceitos ou princípios mais gerais pelos quais todas as proposições particulares devem ser explicadas, e se Deus é a exemplificação principal daqueles princípios, logo, falar em Deus é eminentemente significante e básico para a significância de tudo o mais.60

Mas, como disse Erickson, os teólogos do processo, na tentativa de corrigirem estes erros, reagiram tão fortemente que acabaram cometendo outros ainda mais graves. Pois, enquanto a Bíblia descreve Deus como estando envolvido com o mundo, ela também fala de Deus como existindo antes da criação, ressaltando seu “status” de independência.61

Erickson ainda chama nossa atenção para outro problema. É que os próprios teólogos do processo têm reconhecido que devem existir aspectos da realidade que são imutáveis. Não fosse este o caso, sua visão atual sobre Deus estaria passível de mudança, sendo eventualmente substituída por uma outra até mesmo contraditória. Mas esta questão sobre os princípios imutáveis não tem sido completamente explorada. Qual são os “status” destes princípios imutáveis? Como eles se relacionam com Deus? Se existem princípios da realidade que não mudam, não poderia ser que algo da natureza de Deus fosse similarmente atemporal e absoluto?62

A concepção bipolar de Deus defendida pela teologia do processo ensina que Deus é mutável e limitado em seu poder, onisciência, não conhecendo portanto o futuro e nem podendo garantir nada em relação a ele. Como é, então, que tal concepção de Deus se harmoniza com as Escrituras que estão repletas de promessas em relação ao futuro? Como ficam, também, as promessas bíblicas e a esperança cristã? Como pode o Deus da Bíblia prometer no caso de ser finito, não estando em condições de assegurar o cumprimento? Para fugir desta questão, a teologia do processo nega que Deus lide com o mundo na base de recompensas e castigos63. Se, como dizem os teólogos do processo, Deus não pode controlar as finitas ocasiões das auto-realizações e que as atividades da criatividade divina envolvem riscos64 e que “o futuro está totalmente aberto”65, como podemos confiar num deus assim: mutável, dependente, relativo e limitado?

Eles se contradizem ao reivindicar mais harmonia com as Escrituras66. Eles usam as Escrituras de maneira seletiva. Advogam a autoridade bíblica para aqueles textos que concordam com o seu ponto de vista, ignorando aqueles que lhe são contrários. A descrição que fazem de Deus ainda está muito longe de fazer justiça ao Deus retratado pela Bíblia. Os teólogos do processo partem da teologia natural, dos conhecimentos da física, da biologia, da natureza enfim, para se chegar ao conhecimento de Deus. Minhas pressuposições sobre a prioridade da autoridade das Escrituras Sagradas não encontram eco na teologia do processo. Reconheço a influência da verdadeira ciência sobre nossas concepções de mundo. Mas ela não deve exercer o papel central e predominante quando se trata de teologia. Esta abordagem empírica, partindo da experiência para se chegar a causa, além de riscos e resultados desastrosos, é um sério desprezo à revelação bíblica.

A distinção que fazem entre Deus e criatividade é também incompatível com o ensino bíblico. Eles precisam recolocar a criatividade dentro de Deus para que sua doutrina panenteísta possa ser colocada à disposição da teologia cristã.67

O conceito de Deus como o relativista supremo destrói qualquer base para a moralidade, pois para crescer em complexidade, o próprio Deus deve englobar não somente mais e mais bom, mas, igualmente, mais e mais mau.68

Embora a teologia do processo pretenda ver Deus como um ser pessoal, opondo-se ao conceito, tido como tão impessoal, de impassibilidade do teísmo clássico, concordo com Erickson que levanta a questão se este é realmente o caso. Pois, como ficou evidente na apresentação que fizemos do conceito de Deus por parte da teologia do processo, “Deus pareceu ser pouco mais que um aspecto da realidade. Não ficando claro em que sentido Ele é um ser pessoal e ativo.”69

Existem também muitos outros problemas relacionados aos ensinos da teologia do processo que não estão diretamente relacionados com o tema deste trabalho, como por exemplo, estudando a cristologia da teologia do processo percebe-se nitidamente que eles fogem do tema da cruz. Enfatizam a sua encarnação (não no sentido ortodoxo), sua relação com os homens, seu amor criativo e sua compaixão, mas nenhuma palavra sobre a sua cruz. Falam dele como o nosso modelo absoluto de encontrar atualização, “reduzindo Jesus à uma pessoa exemplar para nós”70.

Concordo com Nash, quando ele diz que é irônico o argumento de que o teísmo tomístico é dominado pela influência pagã da filosofia grega, como se eles mesmos, igualmente, não estivessem em débito para com o antigo pensamento grego. Pois o conflito entre o teísmo tomístico e a teologia do processo é basicamente um reavivamento da forte disputa entre as rivais escolas filosóficas gregas, em que uma enfatizava o “ser” e a outra ressaltava a supremacia do “vir a ser” ou “tornar-se”.71

Nash observa outro problema na teologia do processo, pois que enfatiza que tudo está sujeito a mudança, inclusive Deus; ficando, portanto, difícil ver como é que o Deus do pensamento do processo consegue manter sua identidade. Nash lembra que uma longa e honrada tradição na filosofia assegura que se algo retém identidade através do tempo, deve existir algo sobre ele que é o mesmo e que se mantém inalterado. Mas, desde que no pensamento do processo Deus é totalmente sujeito as vicissitudes de mudança, nada pode assegurar sua identidade. Então, pergunta Nash: “Qual razão, então, têm os cristãos hoje para acreditar que o Deus que eles adoram é o mesmo Deus adorado por Moisés e revelado por Jesus Cristo?” 72

Por fim, como disse C. F. H. Henry, “esta teoria é tão complexa que Deus somente pode se revelar aos metafísicos do século XX para ser entendido”73

3. RONALD H. NASH

3.1. O Conceito de Nash sobre a Imutabilidade de Deus

Nash tem como pano de fundo o debate entre o tomismo e a teologia do Processo. Ele diz que não estamos forçados a optar entre estes dois pontos de vista como se não existissem outras alternativas. Cita Bruce Demarest que afirma que a fé cristã tem como fonte o judaísmo com seu conceito de Deus como ser vivo, ativo que se relaciona e se envolve nos eventos da natureza e que demonstra seu poder sobrenatural através dos milagres. Diz ainda que o Deus da tradição judaico-cristã é imutável em seu ser, atributos e propósitos, mas que ao lidar com sua criação, Deus realmente entra em mutáveis relações. Pois, a divina imutabilidade não significa que Deus é indiferente, apático, inativo e irrelacionável. Demarest diz que é uma completa irresponsabilidade substituir o Deus do teísmo por um que é finito sob o pretexto de afirmar a relação de Deus com o mundo. Pois a fé bíblica afirma que o perfeito Deus inclui criativa interação que é consistente com Seu imutável caráter e propósito.74

Para Nash, a forma como o tomismo apresenta a imutabilidade divina freqüentemente sugere um Deus que é completamente impassível, indiferente iceberg metafísico, ou, ao menos, um não-receptivo doador que lida conosco numa via de mão única, onde meu amor ou falta de amor, minha salvação ou perdição, não fazem a menor diferença para ele, que neste sentido, permaneceria indiferente.75

Mas, Nash diz que, os teólogos do processo, em seu afã em defender a mutabilidade de Deus, “têm pago um alto preço, tendo como resultado a crença num deus que é finito, impotente e dependente, mais merecedor de nossa pena do que de nossa adoração”76. Outra objeção que Nash faz é que um deus mutável nos deixaria inseguros em relação as promessas.

Como mencionado, com mais detalhes, na avaliação que fiz da teologia do processo, concordo com Nash, quando ele diz que é irônico o argumento de que o teísmo tomístico é dominado pela influência pagã da filosofia grega, como se eles mesmos, igualmente, não estivessem em débito para com o antigo pensamento grego.

Já falamos que Nash observa outro problema na teologia do processo, pois que enfatiza que tudo está sujeito a mudança, inclusive Deus; ficando, portanto, difícil ver como é que o Deus do pensamento do processo consegue manter sua identidade.

Nash afirma que os escritos de W. Norris Clarke têm provavelmente sido a mais importante tentativa de preservar os elementos essenciais da fé cristã tradicional na imutabilidade divina, enquanto leva em consideração as legítimas preocupações e problemas levantados pela teologia do processo. O atributo de imutabilidade de Deus deve ser entendido de como consistente com a existência de Deus como um ser pessoal. A mudança que necessariamente acompanham as interpessoais relações de Deus com as suas criaturas não é, de modo algum, sinal de imperfeição, pelo contrário, um Deus pessoal seria imperfeito se não fosse capaz de se envolver em tais relacionamentos. Pois, por exemplo, dar e receber afeto, ter compaixão e sensibilizar-se são características peculiares e muito apropriadas a uma pessoa. Como disse Nash: “Qualquer pessoa, incluindo Deus, que não pudesse entrar em mútuos relacionamentos de amor seria imperfeita.”77

Clarke tem enfrentado, da seguinte maneira, o problema de como preservar o amor, a preocupação e interesse de Deus, demonstrado através das diversas atitudes responsivas de Deus registradas na Bíblia sem com isto minar as bases da fé na perfeição cristã: Ele acredita que existe uma fonte de recursos latentes na metafísica tomística que pode resolver este dilema sobre a imutabilidade divina. Pois a metafísica tomística faz uma distinção entre dois tipos de relação: relações na ordem real do ser e relações na ordem intencional do ser, que é a consciência de Deus. O atributo de imutabilidade precisa ser reinterpretado como uma propriedade que se relaciona ao ser real de Deus, onde nem sua natureza e nem o seu caráter estão sujeitos a mudanças, ou seja, a própria metafísica tomística faz distinção entre estes dois tipos de relações; sendo assim, mudanças na ordem intencional do ser de Deus não implicam numa correspondente mudança em Sua ordem real do ser, portanto, Deus pode ser positivamente afetado por aquilo que nós fazemos e, em algum sentido, o ser humano pode fazer diferença para Deus, mas toda e qualquer mudança se dá apenas na consciência de Deus (ordem intencional) e não altera o próprio ser de Deus. Os conteúdos da consciência de Deus podem ser contingentes, variados e muitos, mas isto não implica que o ser intrínseco de Deus seja contingente. Nada que Deus crie, conheça e ame acrescenta algo a perfeição e plenitude do seu ser real. O ser real de Deus é tão completo quanto ele pode ser. Toda diferença e mudança se dá apenas no nível da consciência relacional de Deus.78

3.2. Temas correlacionados

3.2.1. Impassibilidade e amor de Deus

Por razões já mencionadas anteriormente, Nash é totalmente contrário a idéia de impassibilidade. Nash procura entender a imutabilidade de Deus de modo consistente com o conceito de Deus como ser pessoal. Sendo que ter emoções é próprio de um ser pessoal, Deus não é impassível.

3.2.2. Relacionamento Deus-mundo

Diz ainda que o Deus da tradição judaico-cristã é imutável em seu ser, atributos e propósitos, mas que ao lidar com sua criação, Deus realmente entra em mutáveis relações.

3.2.3. Atemporalidade, presciência e liberdade humana

Sobre as questões envolvendo atemporalidade, presciência e liberdade humana, Nash confessa que no passado sustentava o ponto de vista tradicional em defesa da atemporalidade de Deus, primeiro, por respeito a sua longa tradição e, segundo, por reconhecer que ela oferece uma solução para problemas como o aparente conflito entre a presciência divina e a liberdade humana, mas que passou para um estágio de hesitação quanto a sua confiança nesta teoria. Um dos principais argumentos que faz com que Nash esteja incerto quanto a atemporalidade de Deus é aquele de Nelson Pike, que Nash cita em seu livro, “The Concept of God”, na página 79. Pike diz que a doutrina da atemporalidade de Deus é incompatível com a tão fundamental doutrina cristã que concebe Deus como o criador e o preservador do Universo. Os verbos que descrevem Deus criando ou preservando, descrevem atividades que contém uma inevitável dimensão temporal. A atividade de Deus deve estar no tempo. Então Deus deve estar no tempo, pois Deus não pode ser separado de seu atos. Nash deixa a questão em aberto. Ele não vê nenhuma razão porque o teísmo não possa acomodar ambas as interpretações.79

Sobre presciência e liberdade humana, Nash diz que não existe nenhum argumento que mostre que a presciência de Deus torna necessários os futuros atos do ser humano. Nash concorda que Deus conhece as verdades necessárias. As verdades necessárias são como aquelas encontras na lógica matemática: “sete mais cinco são igual a doze”. Esta afirmação é verdadeira em todos os mundos possíveis. Deus conhece as verdades necessárias, mas também conhece um grande número de verdades contingentes, que são verdadeiras em alguns mundos, mas em outros não. Nash cita o exemplo do episódio do assassinato de Abraham Lincoln. Para Nash existem diversos mundos possíveis em que Abraham Lincoln viveria até anos depois sua aposentadoria.

3.3. Avaliação

Nash procura evitar os perigo dos dois extremos, se esforçando por preservar os elementos essenciais da fé cristã tradicional, enquanto leva em consideração as legítimas preocupações e problemas levantados pela teologia do processo. Seu grande mérito está em reinterpretar a doutrina da imutabilidade de Deus de modo consistente com a existência de Deus como um ser pessoal.

Entendo que existam muitas razões para dúvidas quanto a questão da atemporalidade. E concordo com Nash em que o teísmo deva acomodar ambas as opiniões a respeito deste tema tão controvertido. Mas nem por isto devemos assumir uma postura de neutralidade. O assunto é muito importante, pois tem implicações sérias quanto a presciência divina e o livre-arbítrio humano. Não é bom permanecer indeciso sobre um assunto como este por muito tempo. Nash deveria ter, pelo menos, deixado mais claro quais são, de fato, as suas inclinações.

A explicação apresentada de como Deus permanece imutável num sentido enquanto é mutável em outro, onde se recorre à metafísica do próprio Tomás de Aquino, não é menos complexa do que o conceito bipolar de Deus da teologia do processo, sendo assim, o mesmo comentário de Henry, feito no último parágrafo do capítulo dois, cabe muito bem aqui.



CONCLUSÃO

Sobre o que diz Aquino:

Aquino concentra-se em questões que diziam respeito a sua época, estando muito mais preocupado em enfatizar a perfeição de Deus, escapou-lhe, portanto, as questões envolvendo relacionamento, amor e toda dinâmica implicada nisto.

Concordo com a teologia do processo em que foi a influência do pensamento grego que levou Tomás de Aquino a concepção de Deus como imutável, impassível e atemporal. Mas, assim como Nash, reconheço que é irônico o argumento de que o teísmo tomístico é dominado pela influência pagã da filosofia grega, como se eles mesmos, igualmente, não estivessem em débito para com o antigo pensamento grego. Pois o conflito entre o teísmo tomístico e a teologia do processo é basicamente um reavivamento da forte disputa entre as rivais escolas filosóficas gregas, em que uma enfatizava o “ser” e a outra ressaltava a supremacia do “vir a ser” ou “tornar-se”.

Discordo do tomismo quando ensina que Deus ama sem paixões, apenas no sentido de que deseja boas coisas para os outros, ao mesmo tempo que concordo com a teologia do processo que nos lembra que amar implica em ser afetado pelas ações e condições do ser amado. Portanto, amar sem emoções, simpatia e compaixão é uma contradição. Além disto, um amor frio e indiferente, desprovido de empatia, não é nada inspirador e não encontra respaldo bíblico, muito pelo contrário, o Deus das Escrituras, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, é um Deus de amor compassivo e sofredor.

Concordo com Nash, como já demonstrado, em que a concepção tradicional sobre a imutabilidade de Deus é muito rígida, inflexível e sem dinâmica, não se harmonizando, portanto, de forma completa, com a Bíblia que ensina que Deus é amor, como também, com o significado e a importância que Deus confere aos homens. Em Cristo temos a revelação suprema do amor de Deus por nós e do quanto representamos para Ele: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira...” (Jo 3.16). A forma como Aquino apresenta a imutabilidade e a impassibilidade de Deus torna-se inconsistente com seu próprio ensino que afirma que Deus é um ser pessoal, pois a mudança que necessariamente acompanha as relações interpessoais de Deus com suas criaturas não é sinal de imperfeição, pelo contrário, um Deus pessoal seria imperfeito se não pudesse ser capaz de se envolver em tais relacionamentos. Por exemplo, dar e receber afeto, ter compaixão e sensibilizar-se são características peculiares e muito apropriadas a uma pessoa. Como disse Nash: “Qualquer pessoa, incluindo Deus, que não pudesse entrar em mútuos relacionamentos de amor seria imperfeita.”80 Portanto, entender que Deus é um ser pessoal, implica em compreender que esteja envolvido em relacionamentos reais e significativos. E que Deus realmente se importa conosco, onde, de algum modo, nossas vidas e atitudes têm real valor e fazem diferença para Deus. E, como vimos, a Bíblia desconhece um Deus atemporal. O conceito de atemporalidade é de origem grega.

Sobre o que diz a teologia do processo:

A teoria da evolução de Darwin e da relatividade de Einstein são pressupostos tão fortes na mente dos teólogos do processo que toda a sua leitura da Bíblia passa necessariamente por este filtro, daí sua concepção de Deus como estando em processo e sendo relativo. Só que, mesmo em virtude da conclusão de que o mundo está em processo, não podemos concluir daí, apressadamente, que Deus também esteja em processo evolutivo. Mesmo premissas verdadeiras podem nos levar a conclusões falsas. Seria preciso primeiro provar que não existe nada imutável. E, como vimos, os próprios teólogos do processo afirmam que existem princípios da realidade que são imutáveis. Não fosse este o caso, como afirmou Erickson em texto já mencionado, a própria visão atual dos teólogos do processo sobre Deus estaria passível de mudança, sendo eventualmente substituída por uma outra até mesmo contraditória. Mas esta questão sobre os princípios imutáveis não tem sido completamente explorada. Qual são os “status” destes princípios imutáveis? Como eles se relacionam com Deus? Se existem princípios da realidade que não mudam, não poderia ser que algo da natureza de Deus fosse similarmente atemporal e absoluto?

Os teólogos do processo partem da teologia natural, dos conhecimentos da física, da biologia, da natureza, enfim, para se chegar ao conhecimento de Deus. Minhas pressuposições sobre a prioridade da autoridade das Escrituras Sagradas não encontram eco na teologia do processo. Reconheço a influência da verdadeira ciência sobre nossas concepções de mundo. Mas ela não deve exercer o papel central e predominante quando se trata de teologia. Esta abordagem empírica, partindo da experiência para se chegar a causa, além de riscos e resultados desastrosos, é um sério desprezo à revelação bíblica. Em outras palavras, não devemos usar a Bíblia para defender nossas pressuposições, devemos permitir que a Bíblia fale por si mesma. Uma das regras da hermenêutica é que um texto não pode significar hoje o que nunca poderia ter significado para os leitores originais. Assim, precisamos, em primeiro lugar, ouvir a Palavra de Deus lá e então, para depois aplicá-la no nosso contexto atual. Precisamos levar em consideração a cosmovisão dos receptáculos originais. A negligência deste princípio é perceptível tanto em Tomás de Aquino quanto na teologia do processo.

A teologia do processo ensina que Deus é totalmente sujeito as vicissitudes de mudança. O perigo desta afirmação, como já foi dito, é que nada pode assegurar sua identidade no transcurso do tempo.

Também estou com Nash quanto às objeções que faz aos conceitos panenteísta de Deus, pois, por exemplo, um deus limitado e mutável, que não é onipotente e nem soberano, nos deixaria inseguros em relação as promessas.

Reconheço a procedência de várias críticas que a teologia do processo faz ao tomismo clássico, principalmente no que diz respeito ao atributo de imutabilidade e impassibilidade, mas não creio que a resposta esteja na metafísica de Whitehead, que apresenta Deus com um ser finito, negando, como um todo, o pacote de atributos de Deus do teísmo tradicional. Uma postura mais equilibrada como a de Nash seria recomendável.

Sobre o que diz Nash:

Para Nash, a forma como o tomismo apresenta a imutabilidade divina freqüentemente sugere um Deus que é completamente impassível, indiferente iceberg metafísico, ou, ao menos, um não-receptivo doador que lida conosco numa via de mão única, onde meu amor ou falta de amor, minha salvação ou perdição, não fazem a menor diferença para ele. Deus, se este fosse o caso, seria indiferente a nós, completamente apático em relação aquilo que nos acontece.

Nash concorda com os teólogos do processo no que diz respeito a eliminar os atributos de impassibilidade e simplicidade que são defendidos pelos tomistas.

Nash diz que não estamos obrigados a ter que escolher entre o pacote de atributos do tomismo e o conceito panenteísta de Deus. Existem outras alternativas intermediárias. Ele mesmo representa uma delas. Em muitos pontos, como já foi tratado, os ataques da teologia do processo contra o tomismo são justificados, mas isto não implica em abandonar a crença em cada um dos atributos de Deus defendidos por Aquino e aderir ao panenteísmo. Dentro do próprio teísmo existem variadas interpretações sobre os atributos de Deus.

Nash reconhece o valor das críticas tecidas em relação ao atributo de imutabilidade divina, não se esquivando da questão e apresentando uma alternativa que, embora não esteja livre de problemas, tem a virtude de mostrar, ao menos, a possibilidade de Deus ser, em algum sentido, mutável e afetado positivamente por sua criação, sem que isto implique em imperfeição ou qualquer mudança em sua natureza e caráter.

Finalizando, o mundo tem experimentado, principalmente no último século, mudanças extraordinárias. Tem enfrentado verdadeiras revoluções conceituais. As questões e os desafios já não são os mesmos da época medieval. Precisamos encarar estes novos desafios e procurar estar sempre preparados para responder a todo aquele que nos pedir a razão da esperança que há em nós (1 Pe 3.15).

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1O conceito bipolar de Deus pode ser visto com maiores cuidados no capítulo dois deste trabalho.

2“A idéia bíblica de eternidade não é de ausência de tempo, mas de extensão ilimitada de tempo, uma sucessão infinita de eras (cf. Ef 2.7 e 1 Tm 6.19)” da obra: Shedd, Russell P. E Pieratt (Editores). Imortalidade. São Paulo: Edições Vida Nova. 1982, p. 12.

3Aquino, Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Alexandre Corrêa. Organização e Direção de Rovílio Costa e Luís Alberto de Boni. Caxias do Sul: Livraria Sulina Editora e GRAFOSUL - Indústria Gráfica Editora Ltda. Co-edição 1980. Primeira Parte - Questões 1-49 - Segunda Edição, p. 68.

4Ibid., p. 65.

5Thiessen, Henry Clarence. Palestras em Teologia Sistemática. São Paulo: Imprensa Batista Regular do Brasil. 1994, p. 80.

6Aquino, Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Alexandre Corrêa. Organização e Direção de Rovílio Costa e Luís Alberto de Boni. Caxias do Sul: Livraria Sulina Editora e GRAFOSUL - Indústria Gráfica Editora Ltda. Co-edição 1980. Primeira Parte - Questões 1-49 - Segunda Edição, p. 65 e 66.

7Ibid., p. 66.

8Ibid., p. 66.

9Ibid., p. 66.

10Elwell, Walter A. (Editor). Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Edições Vida Nova. 1993, Vol. II, p. 320.

11Fairweather, A. M. (Editor) The Library of Christian Classics: Ichthus Edition. Aquinas on Nature and Grace. Philadelphia: The Westminster Press. P. 81.

12Ibid., p. 80.

13Ibid., p. 79.

14Mais detalhes sobre o assunto pode ser encontrado em: Nash, Ronald H. The Concept of God - An Exploration of contemporary Difficulties with the Attributes of God. Grand Rapids: academie Books/Zondervan, 1983, capítulo 6.

15Elwell, Walter A. (Editor). Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Edições Vida Nova. 1993, Vol. I, p. 443.

16Fretheim, Terence E. The Suffering of God. Philadelphia: FORTRESS PRESS. 1984, p. 37.

17Elwell, Walter A. (Editor). Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Edições Vida Nova. 1993, Vol. II, p. 320 e 321.

18Kidner, Derek. Gênesis - Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão. 1985, p.80.

19Existe um interessante comentário sobre esta questão na introdução da seguinte obra: Shedd, Russell P. E Pieratt (Editores). Imortalidade. São Paulo: Edições Vida Nova. 1982, pp. 11, 12.

20“A idéia bíblica de eternidade não é de ausência de tempo, mas de extensão ilimitada de tempo, uma sucessão infinita de eras (cf. Ef 2.7 e 1 Tm 6.19)” da obra: Shedd, Russell P. E Pieratt (Editores). Imortalidade. São Paulo: Edições Vida Nova. 1982, p. 12.

21Fretheim é um teólogo que partilha deste ponto de vista. Ele faz uma interessante defesa de sua posição no capítulo 4, do seu seguinte livro: Fretheim, Terence E. The Suffering of God. Philadelphia: FORTRESS PRESS. 1984, p.45-59.

22Thiessen, Henry Clarence. Palestras em Teologia Sistemática. São Paulo: Imprensa Batista Regular do Brasil. 1994, p. 80.

23Nash, Ronald H. The Concept of God - An Exploration of contemporary Difficulties with the Attributes of God. Grand Rapids: academie Books/Zondervan, 1983, p. 95 e 96.

24Cousins, Ewert H. (Editor). Process Theology - basic writings by the key thinkers of a major modern movement. New York: Newman Press. 1971, p. 4.

25Extraído do artigo “Dúvidas para os pensadores do próximo milênio”, Do Jornal “Folha de São Paulo”, 03/03/1996. “MAIS!” 5, p. 7.

26Cousins, Ewert H. (Editor). Process Theology - basic writings by the key thinkers of a major modern movement. New York: Newman Press. 1971, p. 7.

27Ibid. p.325 APUD M. Barthelemy-Maudle, Bergson et Teilhard de Chardin. Paris: Editions du Seuil, 1963.

28Cousins, Ewert H. (Editor). Process Theology - basic writings by the key thinkers of a major modern movement. New York: Newman Press. 1971, p. 326.

29Ibid., p. 6.

30Ibid., p. 7.

31Elwell, Walter A. (Editor). Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Edições Vida Nova. 1993, Vol. III, p. 510.

32Cobb, John B and Griffin, David Ray. Process Theology - An Introductory Exposition. Philadelphia: The Westminster Press. 1976, p. 14. (Obs.: tradução deste texto feita por mim, José Ildo Swartele de Mello).

33Cousins, Ewert H. (Editor). Process Theology - basic writings by the key thinkers of a major modern movement. New York: Newman Press. 1971, p. 14.

34Ibid., p. 123.

35Ibid., pp. 122-123

36Ibid., p. 169.

37Ibid., p. 123.

38Ibid., p. 81.

39Ibid., p. 156.

40Ibid., p. 6.

41Ibid., p. 157.

42Ibid., p. 157.

43Ibid., p. 168.

44Ibid., p. 168.

45Elwell, Walter A. (Editor). Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Edições Vida Nova. 1993, Vol. III, p. 89.

46Cousins, Ewert H. (Editor). Process Theology - basic writings by the key thinkers of a major modern movement. New York: Newman Press. 1971 p. 113.

47Ibid., p. 112.

48Cobb, John B and Griffin, David Ray. Process Theology - An Introductory Exposition. Philadelphia: The Westminster Press. 1976, pp. 8-9.

49Ibid., p. 15.

50Ibid., p. 20.

51Cobb, John B and Griffin, David Ray. Process Theology - An Introductory Exposition. Philadelphia: The Westminster Press. 1976, p. 45.

52Ibid., p. 100. (obs.: traduzido por José Ildo Swartele de Mello).

53Ibid., pp. 45-47

54Ibid., p.47.

55Cousins, Ewert H. (Editor). Process Theology - basic writings by the key thinkers of a major modern movement. New York: Newman Press. 1971, p. 109.

56Ibid., p. 9-10.

57Cobb, John B and Griffin, David Ray. Process Theology - An Introductory Exposition. Philadelphia: The Westminster Press. 1976, p. 21.

58Cousins, Ewert H. (Editor). Process Theology - basic writings by the key thinkers of a major modern movement. New York: Newman Press. 1971, pp. 14-15.

59Cousins, Ewert H. (Editor). Process Theology - basic writings by the key thinkers of a major modern movement. New York: Newman Press. 1971, p. 165.

60Elwell, Walter A. (Editor). Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Edições Vida Nova. 1993, Vol. III, p. 514.

61Erickson, Millard J. Christian Theology. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House.1987. One-volume edition. P. 280.

62Ibid., p. 281.

63Cobb, John B and Griffin, David Ray. Process Theology - An Introductory Exposition. Philadelphia: The Westminster Press. 1976, p. 54.

64Ibid., p. 53.

65Ibid., p. 81.

66Cousins, Ewert H. (Editor). Process Theology - basic writings by the key thinkers of a major modern movement. New York: Newman Press. 1971, p. 19-20.

67Elwell, Walter A. (Editor). Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Edições Vida Nova. 1993, Vol. III, p. 89.

68Horrell, J. Scott. Teologia Contemporânea I. (Apostila - Faculdade Batista de Teologia) São Paulo. 1995. P. 37.

69Erickson, Millard J. Christian Theology. Grand Rapids, Michigan: Baker Book House.1987. One-volume edition. P. 281.

70Horrell, J. Scott. Teologia Contemporânea I. (Apostila - Faculdade Batista de Teologia) São Paulo. 1995. P. 37.

71Nash, Ronald H. The Concept of God - An Exploration of Contemporary Difficulties with the attributes of God. Grand Rapids, Michigan: Academie Books - Zondervan Publication. 1983, p. 31.

72Ibid., p. 35.

73Henry, C. F. H. “A Critique”. Living God. Baker, 1973, p. 14, APUD Horrell, J. Scott. Teologia Contemporânea I. (Apostila - Faculdade Batista de Teologia) São Paulo. 1995. P. 37.

74Nash, Ronald H. The Concept of God - An Exploration of Contemporary Difficulties with the attributes of God. Grand Rapids, Michigan: Academie Books - Zondervan Publication. 1983, pp. 30,31.

75Ibid., p. 100.

76Ibid., p. 102.

77Ibid., p. 102.

78Ibid., p. 102,103.

79Uma postura definida contra a atemporalidade e a presciência de Deus encontramos em: : Fretheim, Terence E. The Suffering of God. Philadelphia: FORTRESS PRESS. 1984.

80Ibid., p. 102.